terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Assim eu o quero

Um dia eu tive uma visão do futuro e ele era belo.
Eu estava em minha casa com um belo gramado ao redor, tinha uma piscina e uma bela mesa de sinuca.
Minha biblioteca ficava em um mezanino e lá só ia, além de mim, quem realmente quisesse ler e nada mais. Meus três mil livros lá estavam em perfeita ordem e arrumação, por ordem alfabética de Autor e título. Havia ainda um arquivo de temas e fichas catalográficas com resumos.
Nessa biblioteca havia, anexada uma videoteca com meus filmes preferidos.
Um espaço vizinho continha os arquivos de todas as músicas que eu ouvi na vida e não me deixaram revoltado.
Na varanda larga, que cercava toda a casa, cadeiras confortáveis e samambaias em xaxins, redes para conforto e dormida da sesta.
Nessas varandas, gramado e piscina eu brincava com meus netos como não pude brincar com meus filhos.
Rolava pelo chão com eles, contava-lhes histórias que criei e contei aos meus filhos e outras que para os netos criara.
Aos Domingos, lasanha ou churrasco prontos, toda família em casa, música alta, banho de piscina, netos no colo ou pescoço, filhos em parola com amigos, noras e genros.
Nos outros dias ler, estudar, ensinar. Netos comigo e uma vida a passar para eles.
O gosto refinado pelo tempo deve ser ensinado para que a nova geração não precise passar pelo mesmo processo e sim um outro mais avançado de refinamento.
Uma geração impulsiona a outra, os pais com pouco tempo deixam a tarefa para os avós.
Mas foi uma visão do futuro que a realidade teima em esgarçar e contradizer.
Os meus circunstantes fazem um grande esforço para que isso não se construa.
Pesam para o lado cinza da mediocridade.
Adoram o deus sensual e imediatista da hedoneidade.
Não medem o que virá, não medem o tamanho da sepultura em que enterram o meu pobre projeto de felicidade.
Nesse sepulcro depositam todos os esforços de uma vida erigida ao pé do altar da ciência, trabalho, estudo e família. Da minha vida.
Lutar para que não seja ela enterrada talvez signifique, é muito provável, o rompimento...
Tornei-me cônscio e seletivo.
Não quero abrir mão daquilo que todos esses anos serviu de motivação e tonificou os meus esforços. Aquele alguém que pretende alvo diverso ou se adaptará ou será defenestrado.
Não gozei a vida.
Lutei para tornar vicissitudes em forças e consegui tornar gordo o que antes era descarnado.
Não contei com auxílio. Contei com pesos nas costas.
Não quero mais...
Está próxima a chegada da terceira geração.
O meu shan-gri-lá deve ficar pronto
Ou eu devo morrer.
E não o quero.


Em 20 de Janeiro de 2009.
ZM.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Culpa

Há coisas na vida que caem sobre nossas cabeças acachapando o nosso senso...
Mas é mais duro quando essas coisas vêm em série, sequenciam-se e não dão tempo de respirarmos.
Quando atingem apenas a nós mesmos, costumamos respirar fundo e seguir em frente. Outras vezes esperneamos ou gritamos, enfim, seguimos.
Porém outras vezes os atingidos são seres queridos.
A dor é mais doída.
O tempo de latência para reação é mais demorado. Não das ações evidentes mas das ações interiores.
Demoramos a reconhecer o dano e assimilar o fato, demoramos mais a refazer o quadro e acostumarmo-nos com a nova configuração. Embora até já tenhamos atuado pró ativamente na busca de solução ou minimização dos danos.
No entanto a situação extrema é quando somos nós a causa do dano!
Sempre inscientes disso até que a realidade se choca nas nossas faces e grita que quer ser vista e reconhecida.
É como uma bofetada.
Dolorida e ofensiva.
A desorientação é completa e a letargia a acompanha.
As ações devem ser ponderadas mesmo necessitando ser urgentes. Mas infelizmente o tempo não anda para trás e logo não se pode corrigir o inexorável.
Os efeitos devem ser minorados já que as causas não serão jamais corrigidas.
E assim carregaremos eternamente o peso da certeza de termos dado causa aos deletérios efeitos. A isso se chama “culpa”.
Ou crime culposo...
ZM, 10/01/2009