Assim eu o quero
Um dia eu tive uma visão do futuro e ele era belo.
Eu estava em minha casa com um belo gramado ao redor, tinha uma piscina e uma bela mesa de sinuca.
Minha biblioteca ficava em um mezanino e lá só ia, além de mim, quem realmente quisesse ler e nada mais. Meus três mil livros lá estavam em perfeita ordem e arrumação, por ordem alfabética de Autor e título. Havia ainda um arquivo de temas e fichas catalográficas com resumos.
Nessa biblioteca havia, anexada uma videoteca com meus filmes preferidos.
Um espaço vizinho continha os arquivos de todas as músicas que eu ouvi na vida e não me deixaram revoltado.
Na varanda larga, que cercava toda a casa, cadeiras confortáveis e samambaias em xaxins, redes para conforto e dormida da sesta.
Nessas varandas, gramado e piscina eu brincava com meus netos como não pude brincar com meus filhos.
Rolava pelo chão com eles, contava-lhes histórias que criei e contei aos meus filhos e outras que para os netos criara.
Aos Domingos, lasanha ou churrasco prontos, toda família em casa, música alta, banho de piscina, netos no colo ou pescoço, filhos em parola com amigos, noras e genros.
Nos outros dias ler, estudar, ensinar. Netos comigo e uma vida a passar para eles.
O gosto refinado pelo tempo deve ser ensinado para que a nova geração não precise passar pelo mesmo processo e sim um outro mais avançado de refinamento.
Uma geração impulsiona a outra, os pais com pouco tempo deixam a tarefa para os avós.
Mas foi uma visão do futuro que a realidade teima em esgarçar e contradizer.
Os meus circunstantes fazem um grande esforço para que isso não se construa.
Pesam para o lado cinza da mediocridade.
Adoram o deus sensual e imediatista da hedoneidade.
Não medem o que virá, não medem o tamanho da sepultura em que enterram o meu pobre projeto de felicidade.
Nesse sepulcro depositam todos os esforços de uma vida erigida ao pé do altar da ciência, trabalho, estudo e família. Da minha vida.
Lutar para que não seja ela enterrada talvez signifique, é muito provável, o rompimento...
Tornei-me cônscio e seletivo.
Não quero abrir mão daquilo que todos esses anos serviu de motivação e tonificou os meus esforços. Aquele alguém que pretende alvo diverso ou se adaptará ou será defenestrado.
Não gozei a vida.
Lutei para tornar vicissitudes em forças e consegui tornar gordo o que antes era descarnado.
Não contei com auxílio. Contei com pesos nas costas.
Não quero mais...
Está próxima a chegada da terceira geração.
O meu shan-gri-lá deve ficar pronto
Ou eu devo morrer.
E não o quero.
Em 20 de Janeiro de 2009.
ZM.
Um dia eu tive uma visão do futuro e ele era belo.
Eu estava em minha casa com um belo gramado ao redor, tinha uma piscina e uma bela mesa de sinuca.
Minha biblioteca ficava em um mezanino e lá só ia, além de mim, quem realmente quisesse ler e nada mais. Meus três mil livros lá estavam em perfeita ordem e arrumação, por ordem alfabética de Autor e título. Havia ainda um arquivo de temas e fichas catalográficas com resumos.
Nessa biblioteca havia, anexada uma videoteca com meus filmes preferidos.
Um espaço vizinho continha os arquivos de todas as músicas que eu ouvi na vida e não me deixaram revoltado.
Na varanda larga, que cercava toda a casa, cadeiras confortáveis e samambaias em xaxins, redes para conforto e dormida da sesta.
Nessas varandas, gramado e piscina eu brincava com meus netos como não pude brincar com meus filhos.
Rolava pelo chão com eles, contava-lhes histórias que criei e contei aos meus filhos e outras que para os netos criara.
Aos Domingos, lasanha ou churrasco prontos, toda família em casa, música alta, banho de piscina, netos no colo ou pescoço, filhos em parola com amigos, noras e genros.
Nos outros dias ler, estudar, ensinar. Netos comigo e uma vida a passar para eles.
O gosto refinado pelo tempo deve ser ensinado para que a nova geração não precise passar pelo mesmo processo e sim um outro mais avançado de refinamento.
Uma geração impulsiona a outra, os pais com pouco tempo deixam a tarefa para os avós.
Mas foi uma visão do futuro que a realidade teima em esgarçar e contradizer.
Os meus circunstantes fazem um grande esforço para que isso não se construa.
Pesam para o lado cinza da mediocridade.
Adoram o deus sensual e imediatista da hedoneidade.
Não medem o que virá, não medem o tamanho da sepultura em que enterram o meu pobre projeto de felicidade.
Nesse sepulcro depositam todos os esforços de uma vida erigida ao pé do altar da ciência, trabalho, estudo e família. Da minha vida.
Lutar para que não seja ela enterrada talvez signifique, é muito provável, o rompimento...
Tornei-me cônscio e seletivo.
Não quero abrir mão daquilo que todos esses anos serviu de motivação e tonificou os meus esforços. Aquele alguém que pretende alvo diverso ou se adaptará ou será defenestrado.
Não gozei a vida.
Lutei para tornar vicissitudes em forças e consegui tornar gordo o que antes era descarnado.
Não contei com auxílio. Contei com pesos nas costas.
Não quero mais...
Está próxima a chegada da terceira geração.
O meu shan-gri-lá deve ficar pronto
Ou eu devo morrer.
E não o quero.
Em 20 de Janeiro de 2009.
ZM.