quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Joseph K. cancela telefone


Franz Kafka ao escrever o seu famoso livro “O Processo” não sabia que no século seguinte aqueles absurdos estariam instituídos para lá da Justiça.
Em 1925, lançado postumamente, o livro retrata uma absurda situação em que o protagonista é acusado de algo que não está definido e em momento algum lhe é dado a conhecer a acusação.
Os canais e descaminhos da Justiça são tortuosos e burocráticos.
A instituição não está preocupada com a verdade mas sim com os ritos e o processo segue seu caminho normativo independentemente de que sirva à sociedade ou não.
Na verdade está ligada em satisfazer à classe dominante e a não dar satisfações a outrem que não aqueles.
Assim, independentemente do que se possa extrapolar para a Justiça atual, certamente sem mudanças de postura ou posição, com sua tintura de “democrática” e a serviço do “Estado de Direito”, realmente impostora de tal situação, travestindo em mentiras a realidade e a serviço da fantasia ditatorial do poder instituído, justificando-lhe os atos, independentemente disso, o que se quer aqui é comentar a transposição dessa situação ao cotidiano real.
Exemplificadas pela práxis jurídica, as empresas contemporâneas adotaram o rito e a liturgia.
Consolidaram a impessoalidade no “atendimento eletrônico”.
Aliás, nisso se parecem mais com o enredo de outro livro de Kafka, “O Castelo”.
Nunca ninguém consegue falar com quem resolve qualquer coisa.
Mas os descaminhos e subterfúgios são kafkanianos enfim.
Tentei durante mais de duas horas falar com uma empresa de telefonia e cancelar uma conta telefônica.
Conta de dezessete anos e com as contas pagas religiosamente em dia. Apesar de serviços ruins cotidianamente prestados e regiamente cobrados.
Linha adquirida a peso de ouro em prestações durante dois anos e instalada após seis meses de espera.
Devido às mudanças ocorridas pelo processo não vale mais nada e não pode ser vendida. Se você já não a quer o que lhe resta é apenas pedir o desligamento. E aí é que vem o sofrimento.
Os atendentes telefônicos, na verdade torturadores bem treinados e disfarçados de finos e educados, se esforçam no gerundismo oficializado em lhe informar que “vão estar transferindo para que o senhor possa estar falando para estar conseguindo estar obtendo um número para estar fazendo o cancelamento”.
Após tanto “redondismo” descobrimos que “estaremos sendo transferidos” permanentemente de um torturador para outro, na tentativa de esgotarmos a nossa santa paciência. E a qualquer tentativa de exaltação nossa surge imediatamente a ameaça: “senhor, devemos estar informando de que essa gravação está sendo gravada”.
Após entrar em contato com doze ou quinze torturadores somos informados de que para cancelar a linha telefônica faz-se necessário “estar cancelando a assinatura da internet em banda larga” embutida na linha telefônica.
Ingenuamente você tenta argumentar com a Lógica: mas se cancelarmos a linha telefônica a internet não terá acesso. Apesar de ser tão óbvio não logramos convencer o solípede do outro lado da linha.
“Infelizmente senhor devemos estar informando que o senhor deve estar fazendo uma nova solicitação de quer estar cancelando o seu acesso à internet também”.
Aviso ao muar que isso não me foi informado pelos quatorze quadrúpedes que o antecederam.
Já pronto a dar coices também sou transferido para o asinino que deve por fim cancelar o acesso à internet.
Após mais um aviso de que o atendimento se faria dentro “aproximadamente” um minuto, passo quinze minutos brindado por uma horrorosa musiquinha inidentificável e à repetição hipnótica com sugestões de que aquela operadora de telefonia é a melhor, mais barata e mais eficaz do mundo.
Já quase hipnotizado por tais demoradas sugestões sou salvo pelo gongo. Um filho de Deus atende ao telefone.
“É agora” penso aliviado.
O energúmeno torturador me pede pela décima sexta vez o meu nome, os três primeiros dígitos do meu CPF (será que os três últimos não serviriam? Ou os três do meio? Por que os três primeiros?), meu endereço, o nome da minha mãe (o do pai não pedem nunca, provavelmente por complexo de serem filhos de freqüentadoras de lupanares e acharem que todos o são também), certificado de reservista, conta bancária, certificado de vacina, número do sapato.
Mais uma vez pergunta o número do telefone do qual estou ligando. Como se não estivesse identificado pelo seu Bina.
Venço a maratona, sou mais resistente do que eles esperavam.
Então ele inicia uma nova etapa, me pergunta por que eu quero deixar de usar uma linha que dá acesso de “qualidade superior à internet em banda larga”. Fico muito tentado a dizer que está mais para bunda larga mas como sei que ele vai me ameaçar com a gravação da ligação (brrr, que meda) desisto e apenas respondo que não é de qualidade superior e que funciona muito mal.
O mentecapto inquire qual o motivo de querer o desligamento, antes de mandá-lo à merda de barquinho para não afundar, respiro fundo e, impessoalmente, respondo que é motivo pessoal.
O oligóide passa a me oferecer uma “série de vantagens” que já estavam impressas no folder que a empresa envia.
Certo de que esses são os seus espasmos finais de resistência, recuso impavidamente todas elas.
Ele parece não ter mais argumentos, acho que venci.
-“Um momento senhor que eu vou estar abrindo o sistema para estar verificando”.
A musiquinha de novo. Podiam colocar outra. Mas porque o fariam?
Quinze minutos abrindo o sistema. Espero que hoje à noite a mulher dele leve tanto tempo quanto ele para abrir o sistema dela...
-“Obrigado por aguardar senhor”.
Será?
Não falta mais nada?
Duvido.
Acho que é mais algum golpe. Preparo-me para mais paciência.
Surpresa!
Vem a capitulação.
-“Queira por gentileza estar anotando o número do protocolo de cancelamento senhor”.
UUUUUUUUUUUUFA...
Pergunto ainda: isso cancela também a linha telefônica?
Lógico que a resposta é não.
Mais quinze minutos e vem o novo número de protocolo, agora sim. A linha está cancelada. A partir de amanhã.
Mas agora me deu saudade daquela linhazinha que me acompanhou por quinze anos...
Será que desconsiderariam o pedido.
Isola!
Isso é resultado tardio daquele hipnotismo via telefônica...

04/01/08

Joseph K.
(ZM)

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